Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

#2 Little Women

"'Christmas won't be Christmas without any presentes,' grumbled Jo, lying on the rug."

Assim começa essa bela história da escritora estadunidense Louisa May Alcott. Meu primeiro contato com o livro aconteceu em 2005, quando roubei da estante de minha tia um livro chamado "Mujercitas". Minha intenção era mais que nada, ler algum grande exemplar em espanhol, mas acabei me apaixonando pela vida de Jo. Consegui a versão original - não corrigida - publicada em 1868 e 1869 (segunda parte que virou um livro só). É uma edição da Penguin Books, vendida por um preço razoável na maior livraria do Estado.

Pintada por muitos como uma história moralista, que prega valores como o civismo, o amor à pátria e a dedicação feminina ao lar; essa com certeza é a primeira história que me sensibilizou, assim como fez com muitas mulheres desde 1868, para a questão feminina. E talvez para algo ainda mais importante, para a escrita feminina.

"As young readers like to know "how people look", we will take this moment to give them a little sketch of the four sisters, who sat knitting away in the twilight, while the December snow fell quietly without, and the fire crackled cheerfully within...  Fifteen-year old Jo was very tall, thin and brown, and reminded one of a colt; for she never seemed to know what to do with her long limbs, which were very much in her way. She had a decided mouth, a comical nose, and sharp gray eyes, which appeared to see everything, and were by turns fierce, funny, or thoughful. Her long, thick hair was her one beauty; but it was usually bundled into a net, to be out of her way. Round shoulders had Jo, big hands and feet, a fly-away look to her clothes, and the uncomfortable appearance of a girl who was rapidly shooting up into a woman, and didn't like it."

Jo é um exemplo de mulher para sua época, e em proporções estabelecidas, para os tempos atuais também. Essas quatro irmãs, unidas por valores familiares, representam a família que todos esperam ter. Não digo isso pensando em sua forma convencional, até porque é algo que incomoda Jo no livro. Mas família no sentido puro da palavra. Com desavenças e problemas, mas principalmente, com humor, criatividade e força. Uma força feminina que sempre precisa provar seu valor. Quando os homens vão para a guerra, são as mulheres que ficam e aguentam inverno e verão juntando esperanças e unindo forças para sobreviver. São elas que mantém o equilíbrio de uma casa, a intensidade de um relacionamento.
"A necessidade é a mãe da criatividade". "Nem pobreza nem tristeza impedem uma mulher de sonhar". Foi com as peças de teatro e as conversas entre as irmãs que ri sozinha durante a madrugada. Foi Beth quem me fez soluçar em uma leitura pela primeira vez na vida. Existe entre essas personagens um encanto realista e sonhador ao mesmo tempo. Com certeza não é resultado apenas da história, bastante simples se pensarmos que conta a vida de uma família de classe média composta unicamente por mulheres - tendo o pai sido convocado para a guerra.
É a forma de narrar essas vida que faz toda diferença, essa escrita feminina, sensível aos detalhes e às características das personagens. Existe alguma coisa nessa história que te marca e é para sempre. Seja em espanhol, em inglês ou em português.

Terça-feira, Janeiro 10, 2012

#1 O jornalista e o Assassino

“Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ‘direito do público a saber’; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.”

Terminei na noite passada a leitura de “O jornalista e o Assassino”, presente irônico de natal que veio em ótima hora. “Um crime choca os Estados Unidos e provoca uma reflexão sobre a ética jornalística” essa frase floreia a capa do livro da jornalista Janet Malcolm. Pra quem não sabe, ela é considerada por muitos como uma das maiores jornalistas do século XX. Nasceu em Praga e foi ainda pequena para a América, fugindo da Segunda Guerra principalmente por ser judia. Trabalhou desde 1963 na revista New Yorker e escreveu livros de reportagem sobre Sylvia Plath, Gertrude Stein, Anton Tchékhov e o disputado legado de Freud.
Mas “O jornalista e o Assassino” não é uma grande reportagem. Aqui ela conta o caso do médico Jeffrey MacDonald - condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas - que entrou com uma ação judicial contra um jornalista: Joe McGinniss. Acontece que esse tal de Joe (outro jornalista famoso) escreveu um livro sobre a vida do médico baseado em entrevistas feitas durante o julgamento e na prisão. Os dois conviveram entre encontros e cartas durante quatro anos e se tornaram de alguma maneira amigos. O médico sempre se disse inocente das acusações e apostava no livro de Joe para se livrar das dúvidas a seu respeito. Quando o livro saiu, MacDonald percebeu que o jornalista falava de um homem psicótico e assassino nato, traindo a confiança inspirada durante os anos.
Quais são os limites de um jornalista? Mentir para conseguir informações é válido? Fingir gostar e concordar com alguém para ganhar sua confiança e confissão é crime?
Pela primeira vez essas questões foram levadas ao tribunal nos Estados Unidos e Janet, como jornalista, não podia deixar essa história passar sem análise, sem registro.
Como estudante de jornalismo é impossível não se envolver com o fato. Nossa postura durante uma entrevista, aquilo que fazemos para estimular o entrevistado a falar mais, a falar tudo, parece subitamente errado, ou ao menos, algo a ser pensado. Obviamente eu nunca dormi na casa de um entrevistado ou aceitei pagamento de alguma forma. Mas existem situações, e todos sabem que sim, em que negar alguma coisa é uma maneira de fechar a porta da intimidade. E é exatamente com isso que a maioria das histórias surge, com a intimidade alheia.

“O traço dominante e mais profundamente marcado do jornalista é o seu acanhamento. Enquanto o romancista se atira sem temor às águas da autoexibição, o jornalista fica tremendo na beira, dentro de seu roupão. A extenuante ginástica de expor as próprias dores e vergonhas mais profundas perante o mundo - tarefa diária do romancista - não é para ele. O jornalista limita-se ao trabalho limpo, cavalheiresco, de expor as dores e as vergonhas alheias.”

São vários os assuntos tratados e questionamentos levantados nesta narrativa. A esperança que cada entrevistado deposita na mão do jornalista, contando seus dramas, sempre é desfalcada. Todo entrevistado se frustra de alguma maneira com a imagem reproduzida e mesmo assim, sempre estará disposta a falar. É o prazer de contar sua história, o encanto do jornalista atencioso e preocupado com cada detalhe relatado, é uma relação inevitável e potencialmente perigosa.
“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável.”

Domingo, Novembro 27, 2011

Fernanda e Lígia

Sorria para todos, cruzava as pernas e tomava mais um gole do seu clericot. Em nada achava graça realmente, apenas ria para não ter que falar. Bebia para não precisar falar. Sentia um profundo desânimo, uma falta de vontade absoluta. A bebida sequer fazia efeito, já não encontrava motivações para os jogos de sedução da noite nem para as besteiras compartilhadas com os amigos. Mesmo o sexo, antes tão presente em sua vida, já não comprazia como antes. Em um instante tudo terminava ou ela fingia para que terminasse, cansada desse ritual rotineiro.
Ao seu redor, homens e mulheres vestiam suas melhores roupas e contornavam imperfeições com diferentes técnicas, do pó de arroz ao humor. Falavam todos sobre os assuntos de sempre, sem real intenção de ouvir, relatavam curtas histórias e deleitavam-se com a conquista de atenção. Ela observava, antecipando comentários e movimentos, conhecedora dessas tantas tentativas de agradar, de se situar. Há tempos tinha desistido de julgar. Havia se enredado muitas vezes nas mesmas cordas soltas para poder apertar a dos outros com maldade ou força. Sentia uma desesperança medonha.
Os motivos eram desconhecidos. Ela apontava para a falta de sorte enquanto os outros reclamavam-lhe amor. Observava as vitrines na rua e desejava ser tão desumana quanto um manequim. A complexidade de um relacionamento só lhe proporcionava tédio, os dramas que precisava representar para provar interesse eram fastidiosos demais e não se interessava por qualquer pessoa que tentasse muito. Resignava-se a não investir, não propor, não tentar.
Fernanda observava com olhos ávidos a movimentação no bar. Sentia um prazer incomensurável apenas pelo fato de estar ali, rodeada por homens e mulheres tão admiráveis. Sentia-se incluída em um grupo perfeito, onde inteligência e humor estavam de sobra e não havia quem censurasse um arranjo ou um comentário. Os homens lhe ofereciam drinks e conversavam sobre tudo que lhe fascinava. Ela não conseguia controlar a emoção e se afligia ao saber que por depositar demasiada atenção em algo específico perderia tudo que a rodeava. Coisas maravilhosas aconteciam a cada instante e os poucos goles já faziam com que ela também expusesse suas impressões.
Admirava os casais liberais e até mesmo os mais conservadores da mesa, inseparáveis na confiança. Os homens experientes recitavam versos e discutiam cinema. Ela tentava memorizar tudo que era dito, absorver a nuvem de sabedoria que pairava sobre eles. Observava as mulheres principalmente, admirava a desenvoltura de seus movimentos e a personalidade contida em suas roupas. Percebia as insinuações e trocas entre elas e os homens e se deliciava com os comentários e as troças.
Aquela noite era definitivamente um marco em sua vida, provavelmente a melhor noite até aquele momento e se tivesse sorte a primeira de muitas. Percebia a dedicação de Nicolas e sentia o coração bater muito forte ao imaginar que aquele homem maduro e belo poderia estar interessado. Sentia o mundo nas mãos, sentia que estava presente, viva, que não era apenas uma menina sem graça ou futuro.
Nesse momento Fernanda reparou que alguém não participava da conversação. Olhou para Lígia atentamente, ela bebia com suavidade, passeava os olhos pelo ambiente. Parecia alheia, mas sua forte presença era indiscutível. A postura de Lígia inspirava segurança, uma indiferença soberana de quem viveu muito, de quem sabe muito. De quem não precisava agradar, ela fazia parte daquele grupo por excelência. Fernanda pensou que ali estava uma mulher a ser admirada. Forte, independente, brilhante. Tanto que não conseguia mais reparar no restante. A presença de Lígia perturbava. Fernanda queria amar aquela imagem, aquele ser. Queria ser exatamente assim e faria de tudo para ser, sem saber, tão profundamente infeliz.